A Providência Divina e o Problema do Pecado

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A Confissão Batista de Fé de 1689, no capítulo 5, parágrafo 4, afirma que o conselho determinado de Deus se estende à primeira queda e a todos os demais atos pecaminosos, tanto de anjos quanto de homens, “e isso não por uma mera permissão”. Tal afirmação introduz uma das questões mais complexas da teologia sistemática: de que modo Deus pode ser absolutamente soberano sobre todos os eventos, inclusive os pecaminosos, sem ser o autor do pecado.

Pretendo com este post examinar o significado da expressão “não por uma mera permissão” e, em conexão com ela, considerar em que sentido se pode afirmar que Deus determinou o pecado, conforme a teologia reformada expressa na Confissão de 1689. Sei que muitos não querem pensar neste assunto, preferindo, talvez, deixar esta “dúvida” no baú da mente, mas vamos a isso…

A doutrina da providência na Confissão de 1689

A doutrina da providência, conforme apresentada na Confissão Batista de Fé de 1689, enfatiza o governo soberano, contínuo e ativo de Deus sobre toda a realidade criada. A declaração confessional em questão não se limita a afirmar que Deus governa eventos moralmente neutros ou benéficos, mas inclui explicitamente os atos pecaminosos no escopo de Seu conselho eterno.

Uma leitura superficial poderia sugerir que a relação de Deus com o pecado se dá por meio de uma permissão meramente passiva (terminologia comum), como se Deus apenas tolerasse o mal moral sem qualquer envolvimento positivo em sua ocorrência. No entanto, a Confissão rejeita explicitamente essa interpretação. A negação da “mera permissão” indica que a providência divina não é caracterizada por inatividade ou indiferença, mas por um governo eficaz que abrange inclusive os atos pecaminosos, ainda que de maneira santa, justa e sábia.

Essa posição não implica que Deus seja o autor do pecado, mas afirma que Ele ordena soberanamente todos os acontecimentos, incluindo aqueles que envolvem ações moralmente más, para a realização de Seus propósitos eternos.

Providência, concorrência e controle divino

A teologia reformada clássica tem articulado essa doutrina por meio da noção de concorrência divina. Louis Berkhof expressa essa ideia de forma precisa ao afirmar:

“A providência não é uma permissão meramente negativa e inativa do pecado, mas inclui uma concorrência positiva e um controle, dirigindo-o aos fins que Ele tem em vista” (Teologia Sistemática, p. 171).

Deus, portanto, não atua como um observador passivo da história, mas governa soberanamente as circunstâncias, os limites e os resultados dos atos humanos, inclusive os pecaminosos. Tal governo não compromete Sua santidade, pois Deus não infunde maldade na vontade das criaturas nem aprova moralmente o pecado. Pelo contrário, Ele ordena os atos pecaminosos de modo que estes sirvam aos Seus desígnios santos.

Essa formulação preserva duas afirmações bíblicas fundamentais: a perfeita santidade de Deus — “Deus é luz, e nele não há treva alguma” (1 João 1:5) — e a abrangência total de Seu decreto soberano — “faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade” (Efésios 1:11).

Decreto divino e responsabilidade humana

A distinção entre o decreto divino e a responsabilidade moral das criaturas constitui um elemento central da doutrina reformada da providência. Embora Deus determine todas as coisas, inclusive os atos pecaminosos, essa determinação não elimina nem diminui a agência moral humana. Os agentes criados agem voluntariamente e permanecem plenamente responsáveis por suas ações.

A tensão inerente a essa doutrina é reconhecida nas Escrituras e conduz à extraordinária e humilhante declaração  expressa pelo apóstolo Paulo:

“Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos e quão inescrutáveis os seus caminhos!” (Romanos 11:33).

A história da redenção fornece múltiplos exemplos dessa realidade. A queda de Adão (Gênesis 3), a traição de José por seus irmãos (Gênesis 50:20) e a crucificação de Cristo são alguns dos muitos eventos que envolveram pecado humano real e culpável, mas que, simultaneamente, ocorreram segundo o decreto soberano de Deus para fins redentivos. De maneira semelhante, a narrativa bíblica acerca de Absalão indica que Deus declara que Sua mão soberana esteve em ativa operação por trás daqueles acontecimentos.

João Calvino sintetiza essa relação ao afirmar que o homem cai segundo a providência de Deus, mas cai por sua própria culpa, preservando assim tanto a soberania divina quanto a responsabilidade humana.

A direção divina dos atos pecaminosos

Pode-se afirmar, portanto, que, enquanto o pecador age livremente e de forma moralmente responsável, Deus dirige esses atos pecaminosos para a consecução de Seus propósitos decretados. O episódio do endurecimento do coração de Faraó ilustra essa dinâmica: Faraó endurece o seu próprio coração (Êxodo 8:15), e, ao mesmo tempo, esse endurecimento ocorre segundo a ação soberana de Deus (Êxodo 9:12).

Essa dupla afirmação não sugere contradição, mas expressa a complexidade da relação entre a causalidade divina e a causalidade humana, conforme compreendida pela teologia reformada.

Considerações teológicas finais

A providência divina sobre o pecado possui um caráter teleológico (estudo ou à explicação de algo com base na sua finalidade (fim, propósito ou objetivo), em oposição a causas meramente mecânicas ou aleatórias). Deus ordena a ocorrência do pecado visando a manifestação de Sua justiça, misericórdia e sabedoria. A queda de Adão estabelece o contexto para a obra redentora de Cristo; a traição dos irmãos de José resulta na preservação do povo da aliança; e a cruz — o ato mais grave de injustiça cometido pela humanidade — torna-se o meio pelo qual o palco da salvação acontece. Em todos esses casos, contudo, a culpa moral permanece integralmente com os agentes humanos envolvidos.

Observa-se, ainda, que a Confissão Batista de Fé de 1689 apresenta uma estrutura que pode ser descrita como infralapsariana, por meio da percepção após a leitura de seus diversos capítulos. Tal modelo oferece uma formulação teológica que preserva, de modo equilibrado, tanto a soberania absoluta de Deus quanto Sua perfeita santidade.

Conclusão

A expressão “não por uma mera permissão”, conforme empregada na Confissão Batista de Fé de 1689, afirma que a providência divina não é passiva em relação ao pecado, mas que Deus o governa ativamente segundo Seu decreto eterno. Deus determina o pecado no sentido de ordenar sua ocorrência dentro de Seu plano soberano, estabelecendo seus limites e dirigindo suas consequências para a Sua própria glória. Ao mesmo tempo, Ele permanece perfeitamente santo e não é o autor do pecado, enquanto as criaturas humanas retêm plena responsabilidade moral por suas ações pecaminosas.

Continuemos e prossigamos em conhecer a esse Deus infinito, Santo, Justo e Soberano.

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Ama Ndlovu explores the connections of culture, ecology, and imagination.

Her work combines ancestral knowledge with visions of the planetary future, examining how Black perspectives can transform how we see our world and what lies ahead.