Ontem estive a meditar sobre os Os Salmos 1 e 2 e percebi que eles ocupam uma posição singular na abertura do Saltério. Não são apenas os primeiros salmos; funcionam como uma introdução à mensagem que percorre todo o livro. O primeiro apresenta dois caminhos. O segundo apresenta dois reinos. Juntos, colocam diante do leitor uma realidade incontornável: não existe neutralidade diante de Deus.
O Salmo 1 inicia-se com a descrição do homem verdadeiramente bem-aventurado.
“Bem-aventurado o homem que não anda no conselho dos ímpios, não se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores.”
Salmo 1:1 (ARA)
A bem-aventurança descrita pelo salmista não é definida por circunstâncias favoráveis, prosperidade material ou reconhecimento humano. Trata-se da felicidade daquele que vive sob a influência da Palavra de Deus e não sob a influência do mundo. O texto apresenta uma progressão solene: andar, deter-se e assentar-se. O pecado procura estabelecer-se gradualmente no coração, conduzindo o homem a afastar-se cada vez mais do Senhor.
Em contraste, o justo é identificado pelo seu relacionamento com a revelação divina.
“Antes, o seu prazer está na lei do SENHOR, e na sua lei medita de dia e de noite.”
Salmo 1:2 (ARA)
O justo não vê a Palavra de Deus como um fardo, mas como uma fonte de deleite. A sua mente regressa continuamente às verdades reveladas pelo Senhor. A meditação constante nas Escrituras molda os seus pensamentos, orienta os seus afetos e dirige os seus passos.
O resultado é apresentado através de uma imagem de extraordinária beleza.
“Ele é como árvore plantada junto a corrente de águas, que, no devido tempo, dá o seu fruto, e cuja folhagem não murcha; e tudo quanto ele faz será bem-sucedido.”
Salmo 1:3 (ARA)
A estabilidade da árvore não está em si mesma, mas na fonte que a alimenta. Da mesma forma, a perseverança do crente não se encontra na sua própria força, mas na graça de Deus que o sustenta por meio da Sua Palavra. O fruto surge no tempo determinado pelo Senhor, e a vida daquele que confia n’Ele não é consumida pelas mudanças das circunstâncias.
O Salmo 2 amplia a perspetiva. O olhar deixa de estar sobre o indivíduo e passa a contemplar as nações.
“Por que se enfurecem os gentios e os povos imaginam coisas vãs?”
Salmo 2:1 (ARA)
O salmista descreve a rebelião universal da humanidade contra Deus e contra o Seu Ungido. Reis e governantes unem-se na tentativa de rejeitar o governo divino. O desejo de autonomia que entrou no mundo por meio do pecado continua presente em todas as gerações.
Todavia, a rebelião da terra não altera a realidade do céu.
“Ri-se aquele que habita nos céus; o Senhor zomba deles.”
Salmo 2:4 (ARA)
Estas palavras não descrevem indiferença, mas soberania. Nenhuma oposição humana pode frustrar os decretos eternos de Deus. O Senhor permanece entronizado e governa todas as coisas segundo a Sua perfeita vontade.
O centro do salmo encontra-se na declaração do próprio Deus.
“Eu, porém, constituí o meu Rei sobre o meu santo monte Sião.”
Salmo 2:6 (ARA)
O Novo Testamento identifica claramente este Rei como Jesus Cristo. O Filho não recebeu uma autoridade futura e incerta; Ele reina por determinação do Pai. O Seu reino não depende da aprovação dos homens nem pode ser removido pela oposição das nações.
Os dois salmos terminam apontando para destinos distintos. O caminho dos ímpios conduz à perdição, enquanto os que pertencem ao Senhor permanecem debaixo do Seu cuidado.
“Pois o SENHOR conhece o caminho dos justos, mas o caminho dos ímpios perecerá.”
Salmo 1:6 (ARA)
O Salmo 2 conclui retomando o tema da bem-aventurança, mas agora associado ao Rei prometido.
“Bem-aventurados todos os que nele se refugiam.”
Salmo 2:12 (ARA)
Assim, os dois salmos apresentam uma única mensagem. A verdadeira felicidade encontra-se naqueles que se deleitam na Palavra de Deus e se refugiam no Filho de Deus. A árvore permanece firme porque está junto às águas. O pecador encontra segurança porque encontrou refúgio em Cristo.
À entrada do Saltério, o Senhor recorda ao Seu povo que existem apenas dois caminhos. A questão que permanece é a mesma para cada geração: em qual deles estamos a caminhar?

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